23/07/2008 20:31
Manobra arriscada do BC
Os primeiros comentários sobre a decisão unânime do Banco Central de aumentar os juros básicos em 0,75%, para 13% ao ano, vieram do próprio mercado. Analistas de corretoras de valores consideraram a dose excessiva e, por isso mesmo, insinuam que a mensagem contida no aumento da taxa é a de que o BC disporia de informações mais preocupantes sobre a trajetória futura da inflação.
O raciocínio é simples: as pressões inflacionárias ainda não parecem dispostas a ceder e a possibilidade de que os juros continuem subindo, mais forte e por mais tempo, aumentaram. Em resumo: quem imaginava investir ou exportar vai colocar as barbas de molho mesmo que não use barba. O ritmo de expansão da economia se a economia ainda obedece aos princípios econômicos tem tudo para arrefecer.
Vai sobrar também para as contas públicas. As despesas com juros aumentarão o déficit público, que também será reforçado com os gastos para evitar um derretimento ainda maior do dólar frente o real. Ainda bem que uma medida provisória recente transferiu o prejuízo dessas operações do Banco Central para o Tesouro Nacional, não é mesmo?
De outro lado, o freio imposto pela elevação dos juros à economia, ajudará a, no mínimo, reduzir o ritmo de expansão das receitas do governo. A resultante é um muito provável estreitamento da margem para a destinação de recursos a programas sociais e de investimentos público.
A inflação é, sem dúvida, um imposto pesado para as camadas de menor renda. Mas o desemprego ou a falta de trabalho é um ônus ainda maior. Encontrar a taxa de juros que não esfrie o emprego e, ao mesmo tempo, não esquente a inflação é o desafio e o sonho de todo macroeconomista. Com o lance desta quarta-feira, 23 de julho, o BC jogou muitas fichas numa manobra arriscada.
enviada por José Paulo Kupfer
18/07/2008 21:37
Lições capitalistas
A partir da crise dos financiamentos imobiliários subprimes, nos Estados Unidos, que acabou engolfando o mercado financeiro global, a injeção de dinheiro público em empreendimentos privados tornou-se quase corriqueira. O mais recente lance que ninguém imagina ser último pôs a nu a esdrúxula situação de duas gigantescas empresas de securitização de hipotecas americanas.
Embora com ações em bolsa e lucros distribuídos a acionistas e executivos, as firmas Fannie Mae e Freddie Mac são entes garantidos pelo governo. Fannie Mae é de 1938. Nasceu dos esforços para tirar os Estados Unidos da depressão de 1929 e foi privatizada em 1968. Freddie Mac é fruto de uma lei do Congresso, de 1970.
Ambas recebem benefícios especiais e uma lei de 1992 permite a sua reestatização. Em contrapartida, Fannie e Freddie obedecem a regras mais estritas de funcionamento, não estando envolvidas com créditos podres. Mas foram tragadas pela crise, que produziu inadimplência em cadeia entre os devedores imobiliários nos Estados Unidos.
Carregando ativos e garantias que somam portentosos US$ 5,2 trilhões, Fannie e Freddie, abriram rombos inicialmente estimados em robustos US$ 300 bilhões Suas ações começaram a despencar e aí o governo se mexeu... para evitar a quebra. O fim de semana do secretário do Tesouro, Henry Paulson, foi duro, mas ao cair da tarde do domingo de verão, em Washington, ele pôde confirmar a decisão do governo de sustentar a liquidez das duas companhias. O problema é que ninguém acha que a sangria e a transferência de recursos vai ficar por aí.
Não é só a transferência de recursos do Tesouro para o mercado uma montanha já nas vizinhanças de US$ 500 bilhões que configura intervenção estatal pesada. Diante da corrida contra as ações de Fannie e Freddie, a agência reguladora do mercado de capitais, SEC, também deu a sua contribuição. Em decisão inédita, suspendeu, por uma semana, com possibilidade de prorrogar por um mês, a venda a descoberto de ações de 19 instituições financeiras.
As duas irmãs hipotecárias puxaram a fila, mas, no balaio, entraram figurões entre os bancos comerciais globais e grifes entre os bancos de investimento. A medida não só estancou a derrubada das cotações das instituições beneficiados, mas, como obriga, na prática, a compra das ações rejeitadas, ainda ajuda a alavancar os preços dos papéis, antes em processo de derretimento.
Tem toques entre hilariantes e patéticos as explicações e justificativas neoliberais para esse verdadeiro escândalo de apropriação privada de dinheiro público. No Financial Times, o reputado Clive Crook, chefe dos comentaristas em Washington, chora o leite derramado. Reclama do oba-oba que envolveu a criação e o desenvolvimento, pelas duas empresas para-estatais de securitização de hipotecas, dos títulos lastreados em créditos hipotecários, o ovo da serpente dos subprimes e da crise atual. E lembra que não faltaram alertas, ao longo dos anos, sobre suas futuras tristes sinas.
Pelo andar da carruagem, não é impossível que Fannie e Freddie acabem reestatizadas. Mas, também aí, os observadores devem ficar atentos aos golpes retóricos do liberalismo econômico de fachada, que tem sido praticado com crescente desenvoltura das economias capitalistas maduras e na razão direta do avanço da crise financeira. Como seria muito feio uma estatização na lata, há o recurso de o governo mantê-las em custódia até o surgimento de uma solução de mercado o que é a mesma coisa do que estatizar com nome camuflado e contabilidade enganosa.
Porta-voz do mercado, a revista The Economist, decreta: se você não deve socorrer empresas na queda, então você deve contê-las no boom. Essa regra, na visão da revista, ajuda a compreender por que os bancos agora deve ser submetidos a uma supervisão mais rígida e por que instituições financeiras devem ser obrigadas a aumentar seu capital nos períodos de alta. Explica também por que a política monetária deve atuar no sentido de moderar a alta nos preços dos ativos.
A Economist desconfia, no entanto, das regulações. Acha que os reguladores são facilmente envolvidos e enrolados pelo mercado na hora em que a ganância ganha espaço. A conclusão final mistura purismo e pragmatismo: Os melhores controles são transparência e competição, ensina a revista. Mas completa: Sempre que possível, o governo deve ficar fora.
Se eu entendi bem, a idéia neoliberal é a de que o governo, sempre que necessário, deve intervir. Foi esse, de fato, o conceito usado entre nós, por exemplo, no Proer, famoso programa que, ao custo de R$ 30 bilhões em dinheiro público, salvou a banca brasileira, arruinada pela gestão temerária dos negócios, evidenciada com o fim do ganho inflacionário, na esteira do sucesso do Plano Real.
OK, deixar os bancos quebrarem poderia redundar numa catástrofe econômica, com conseqüência sociais difíceis de dimensionar. Pode ser que, enfim, premiar a gestão temerária fosse o de menos.
Mas, perguntar não ofende: por que o mesmíssimo conceito é repelido e chicoteado quando o que está em jogo é a Previdência Social, a transferência de dinheiro público para populações excluídas ou a garantia, com dinheiro público, de empreendimentos, privados ou não, em áreas estratégicas não-financeiras?
enviada por José Paulo Kupfer
17/07/2008 20:27
Coroa, eles ganham; cara, nós perdemos

As crises financeiras costumam ter um lado didático. Essa que agora atormenta a economia americana e, na sua esteira, o resto do mundo, apresenta muitos aspectos pedagógicos. Um deles é comprovar que não há melhor sistema econômico do que o capitalismo de mercado pelo menos para quem não é pobre.
Entre os sistemas que garantem lucros privados e socialização dos prejuízos, o capitalismo de mercado tem se revelado, de longe, o mais eficiente. Nele, a moeda cai de um lado só: coroa, eles ganham; cara, nós perdemos. Não deixa de ser cínico, mas nada que uma boa retórica sobre liberdades individuais, talento empreendedor e esforço pessoal, em suas expressões mais genéricas e desossadas do ambiente histórico, não resolva.
Um dos ensinamentos que se pode tirar dessa crise com origem nos créditos podres imobiliários, nos Estados Unidos, é que só bobos insistem em copiar o que eles recomendam que seja feito e não o que, na verdade, fazem. Diante do que se convencionou chamar de riscos sistêmicos, são raros os defensores da economia mercado que ousam discordar da decisão de governos de injetar dinheiro público na salvação de negócios privados.
O curioso é que, na linguagem dos neoliberais de casaca, risco sistêmico é uma expressão restrita ao mercado financeiro. Não há risco sistêmico quando se trata., por exemplo, de evitar fome, miséria ou exclusão social. Ou quando se fala em política industrial, num área em que, não havendo estímulo ao desenvolvimento de setores estratégicos, pode ocorrer risco sistêmico da dependência econômica.
Os recursos públicos destinados a evitar esses riscos muito mais sistêmicos costumam ser classificados, pelos defensores das medidas contra os riscos sistêmicos financeiros, de assistencialismo e gastança. Ou, no caso das políticas industriais, de apropriação privada de recursos públicos.
É uma tremenda cara-de-pau.
enviada por José Paulo Kupfer
16/07/2008 17:25
A hora do caldo de galinha
Receita macroeconômica adequada para o momento
Assim como a especulação financeira, a chutometria econômica está solta na praça. Se o preço do barril do petróleo sobe, o dragão da inflação vai tragar o mundo e os Bancos Centrais devem se preparar para lançar os juros na estratosfera. Se a cotação do barril de petróleo cai, vem aí uma deflação como não se via desde 1929, e os Bancos Centrais precisam tomar cuidado para não acentuar a descida da ladeira.
Está na cara que o futuro próximo anda mais incerto do que o desempenho do Fluminense no restante do Brasileirão e os analistas de conjuntura, como se dizia antigamente, estão mais por fora do que umbigo de vedete. Os instrumentos conhecidos de previsão econômica, naturalmente limitados, não dão conta do recado. Resta então um campo fértil para interpretações, especulações e apostas.
Qual a tendência? A resposta até que não é difícil: mesmo com a ascensão dos emergentes e a injeção de recursos públicos na economia americana, a tendência é de desaceleração do ritmo de crescimento nos Estados Unidos e, em conseqüência, no resto do mundo. Se, com a derrubada do dólar e a ascensão da China, os espirros americanos podem não mais provocar uma pneumonia no mundo, ainda causam gripes fortes. E uma coisa é certa: as turbulências na economia americana parecem longe da acomodação.
Isso indica que, naturalmente, o dragão inflacionário tende a se transformar num gatinho dengoso ou, no máximo, num tigre de papel? Aí a resposta já não é tão simples. Não seria a primeira vez que as economias centrais se deparariam com o pior dos mundos da estagflação.
O momento atual parece uma repetição dos anos 70, quando os preços do petróleo também explodiram e a expressão estagflação ganhou popularidade. Nesse período, inflação, taxa de juros e índices de desemprego eram todos de dois dígitos.
A saída pela elevação dos juros exigiu jogar as taxas em alturas nunca antes imaginadas, com evidentes repercussões negativas no crescimento econômico e no emprego, que resultaram na ampliação da pobreza no mundo. No caso brasileiro, a partir da crise do petróleo e da estagflação que assolou o mundo , foram duas décadas de hiperinflação e três de crescimento medíocre.
Trinta anos depois, o dilema não é diferente: puxar os juros, para derrubar a inflação, e acentuar a tendência ao esfriamento da atividade econômica, ou aliviar a política monetária, na tentativa de manter a atividade e o emprego, mas correndo o risco de insuflar a alta de preços?
Os Estados Unidos ainda estão aplicando a segunda alternativa, num movimento que o economista Paulo Rabello de Castro, em bom artigo publicado hoje na Folha (aqui, para assinantes), chama de fuga para a frente. Já no Brasil, o Banco Central afirma e reafirma que aplicará, até onde for necessário, a fórmula da elevação dos juros.
Esse trade off deveria estimular os especialistas a procurarem outras saídas. É provável que a melhor delas não seja nenhuma das duas conhecidas. Chama a atenção, aliás, que, uma geração depois, com toda a experiência acumulada, os economistas não disponham de nenhuma nova formulação para enfrentar os problemas macroeconômicos do momento.
No meio desse ambiente pantanoso, nós, os mortais comuns, deveríamos assistir de camarote ao embate dos sábios, adotando posições defensivas. E os governos, principalmente das chamadas economias emergentes, deveriam reforçar as doses de cautela e caldo de galinha, evitando adotar fórmulas prontas por sectarismo ou ideologia.
enviada por José Paulo Kupfer
14/07/2008 10:47
Operação Satiagraha: tudo dentro do script previsível
Não é por nada, não, mas a pedra cantada aqui neste blog, no primeiro minuto após a prisão de Daniel Dantas e outros, na operação Satyagraha, da Polícia Federal, infelizmente, está se confirmando ponto a ponto. Nenhum mérito nisso. Se a história se repete como farsa, a farsa aqui é repetitiva.
Estamos, como previsto, engalfinhados na discussão dos estilos de prender. Como previsto também, o inquérito policial parece cheio de furos. Aproveitando esses furos, o previsível esforço, em curso, para desqualificar a peça policial como um todo e, em especial, seus autores é de embrulhar o estômago. Enquanto isso, o indigitado está solto, e será surpresa se pegar uma cana, mesmo culpado, daqui para frente.
O que o blog não previu, mas era fácil de prever, é que também já estamos discutindo novas leis para velhos problemas. A ardente discussão sobre os habeas corpus concedidos em tempo recorde pelo presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, já deságua na idéia de mudar a lei que rege o instituto fundamental do habeas corpus.
É típico do Brasil: sempre que uma lei, no caso a do habeas corpus, perfeitamente adequada, é, eventualmente, mal aplicada, o que emerge não é uma pressão para que a lei seja bem aplicada. Logo surge um movimento para fazer outra lei, que se sobreporá à anterior, formando camadas legais, propícias a interpretações variadas e até opostas. Terreno fértil para vicejar a impunidade.
enviada por José Paulo Kupfer
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